Cultura

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Interpréte

Postado por: dlsotolepe
O mito da caverna de Platão é uma das partes do livro VI de “A República”, onde Platão discute a teoria do conhecimento, a linguagem, e a educação na formação de um Estado ideal.
Em sua narrativa, Platão fala sobre prisioneiros que são acorrentados desde o nascimento no interior de uma caverna, olhando somente para uma parede iluminada por uma fogueira, que também ilumina um palco, onde estátuas de figuras humanas, vegetais e animais são manipuladas, como se estivessem representando o cotidiano dessas figuras.
As sombras das estátuas são projetadas na parede, sendo essa a única forma de imagem que os prisioneiros conseguem enxergar. No decorrer do tempo, os prisioneiros dão nomes a essas sombras, da mesma forma como fazemos com todas as coisas, e também à regularidade de suas aparições. Ao mesmo tempo, criam torneios para se vangloriarem de acertar as corretas denominações e regularidade de aparições.

MITO DA CAVERNA DE PLATÃO

Supondo que um dos prisioneiros conseguisse sair das amarras e se pusesse a vascular o interior da caverna, ele descobriria que a visão das sombras era permitida pela fogueira e que, na verdade, os seres eram as estátuas e não as sombras.
Dessa maneira, ele iria perceber que tinha passado toda a vida julgando apenas sombras e ilusões e não conhecendo a verdade, ou seja, vivera afastado de toda a realidade.
Vamos supor, ainda, que esse mesmo prisioneiro saísse da caverna. Ao sair, a luz do sol ofuscaria sua visão e só depois de habituar-se com a luz poderia enxergar as maravilhas existentes fora da caverna.
Com isso, ele não levaria muito tempo para perceber que os seres do mundo real teriam muito mais qualidades do que as sombras e as estátuas na caverna, sendo mais reais do que aquelas.
O prisioneiro, portanto, estaria vendo a verdadeira realidade, como os seres são em si mesmo e, depois disso, não teria dificuldade em perceber que o Sol é a fonte da luz que possibilita a visão do real, bem como também é a fonte de onde provém toda a existência, sendo responsável pelo tempo, pelo calor, pelos ciclos de vida na Terra.
Depois de entender tudo o que ocorre na realidade do mundo, o prisioneiro iria se lembrar de seus amigos no interior da caverna e da vila que tinha levado junto com eles. Sentiria pena deles, da escuridão em que viviam e voltaria à caverna para contar sobre o novo mundo que havia descoberto.
Contudo, como os prisioneiros não conseguiam enxergar senão o que presenciavam, iriam debochar do prisioneiro que havia sido libertado, afirmando que estaria louco e que, caso não parasse com suas loucuras, poderia ser morto por todos.

MITO DA CAVERNA – INTERPRETAÇÃO
Platão, com essa fábula, quer dizer que os prisioneiros somos nós mesmos que, conforme nossas tradições, hábitos e culturas, nos acostumamos com o que conhecemos e fazemos juízo apenas daquilo que nos foi transmitido.
A caverna é o mundo que nos rodeia, onde as imagens prevalecem sobre os conceitos, fazendo com que tenhamos opiniões muitas vezes equivocadas, com preconceitos e pré-juízos. Ao descobrir a verdade, encontramos dificuldade em entender e saber o que é real, já que estivemos sempre na escuridão e nossos olhos estão ofuscados.
Para entender o mundo, devemos estudar, aprender, querer saber sobre o mundo.
Para Platão, o mundo fora da caverna é o mundo real, o mundo que possui formas e ideias que possuem uma identidade indestrutível e imóvel, garantindo o conhecimento de quem tem sensibilidade. O inteligível é o reino real, onde aprendemos o mundo e nos construímos como seres humanos.
O retorno à caverna é nossa vontade de ajudar nossos semelhantes a saírem da ignorância e a construir um mundo mais justo, com mais sabedoria e o Sol representa a ideia suprema do bem, uma espécie de ente supremo que governa o inteligível e que permite ao homem conhecer e saber sobre a realidade.
A fábula, ou alegoria, do mito da caverna é uma forma de falar sobre as dificuldades que os homens possuem de entender, uma vez que o sábio nem sempre consegue ser ouvido pela maioria que ignora a realidade.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Filósofo

Baruch Spinoza (1632 - 1677)
Postado por: dlsotolepe         

Deus para Spinoza é o único motivo da existência de todas as coisas. Deus é a substância única e nenhuma outra realidade existe fora de Deus. Ele é a fonte única e Dele surgem todos os outros elementos. 

Deus existe em si e foi gerado por si, para existir ele não necessita de nenhuma outra realidade. A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nenhuma outra, ela é a causa de todas as coisas existentes, que por consequência são manifestações de Deus.
            Assim sendo, nada existe fora de Deus, e tudo que existe é uma forma de Deus, não como uma criação sem regras ou espontânea, mas seguindo as leis da natureza e respeitando a possibilidade de agir com vontade própria.
            Um dos propósitos de sua filosofia é esclarecer a identidade existente entre nossa mente e o conjunto de todas as coisas da natureza. Para ele essa identidade somente vai acontecer quando conhecermos a nós mesmos e conhecermos também a natureza. O conhecimento da natureza se dá quando entendemos a essência dos objetos ou da sua causa mais próxima. Verdadeiro será o conhecimento que estiver em harmonia e se adaptar à ideia do objeto.
O filósofo estudou o homem e sua condição política, religiosa e moral. Para ele o ser humano é desprovido de vontade, como tudo procede de Deus, tudo também é determinado por Ele. Nós nos julgamos livres porque temos consciência da nossa vontade e achamos que é ela que nos guia, mas quem determina essa vontade é Deus.
Para Spinoza não existe uma finalidade para a existência do homem e nem para a existência da natureza. Deus não criou as coisas para o uso dos homens, nem para agradá-los nem para que os homens agradem a Deus. Pensar que Deus criou as coisas com algum objetivo, como o de que os homens lhe agradem, é o mesmo que dizer que Deus tem necessidade do agradecimento dos homens, e isso é tornar Deus imperfeito. Na natureza tudo é perfeito, pois tudo vem de Deus e é parte dele. Seguindo esse raciocínio, Spinoza descarta a possibilidade da existência de milagres, pois se a natureza é divina e perfeita, qualquer mudança na natureza vai contra a perfeição divina. O milagre é simplesmente um acontecimento natural do qual não conhecemos as causas. Devemos estabelecer em nós um procedimento tal que nos faça admitir que as coisas sejam como são, nos mínimos detalhes, como tem que ser, são imprescindíveis e obrigatoriamente assim porque tem que ser assim.
            Tudo o que existe tem propensão a se manter existindo como o que é e essa é a essência dos seres em geral. Nos homens esse instinto de conservação gera as emoções que são uma mistura desordenada das ideias. A alegria e a tristeza são as principais emoções, a alegria conserva e a tristeza deprecia o ser. O amor e o ódio ocorrem quando a alegria e a tristeza se ligam a algo externo ao sujeito.
            Sobre o direito, Spinoza afirma que existe no mundo um ordenamento essencial, e dele vem o direito natural que tem por origem Deus. O direito natural é para o filósofo as normas que dirigem a natureza. As regras através das quais a natureza se ordena estendem-se até o limite do seu poder. Se o homem seguir as leis da natureza, estará seguindo também as leis de Deus. Se os homens seguirem as regras e ensinamentos recomendados pela razão, o direito natural irá se expressar através dessa razão, que é a natureza do homem. Em sociedade o Estado é o detentor do poder e do direito, mas se o Estado seguir a razão que é própria de cada um dos indivíduos que o compõe ele também estará seguindo o direito natural. O estado limita o poder dos indivíduos, mas não invalida o seu direito natural. O direito do Estado é limitado pelas leis da natureza.
            A fé é submeter-se à vontade de Deus, fé é ter uma conduta de obediência. Os pontos básicos da doutrina religiosa que fundamentam a fé universal para Spinoza são os seguintes: 1 - Deus existe e é justo e misericordioso; 2 - Deus é único; 3 - Deus está em toda parte e conhece tudo; 4 - Deus domina tudo e faz tudo; 5 - Cultuar a Deus é ser justo, caridoso e amar o próximo; 6 - Quem viver desse modo será salvo, os outros não; 7 - Deus perdoa quem se arrepender. O objetivo da fé é a obediência, o objetivo da filosofia é a verdade.

Sentenças:
- É o medo que cria, mantém e alimenta as superstições.
- Uma mesma coisa pode ser ao mesmo tempo boa, ruim ou indiferente.
- O limite do prazer é a saúde.
- Faça primeiro uma ideia positiva, depois uma negativa.
- Se o homem tem uma ideia de Deus, ele deve existir, e o homem tem uma ideia de Deus, portanto...
- A natureza une em si Deus e o homem.
- O homem é uma parte da natureza.
- Todas as coisas e ações na natureza são perfeitas.
- O milagre é um absurdo.
- O ignorante chama de milagre os eventos extraordinários da natureza.
- O ignorante é feliz e infeliz da mesma forma que o sábio.
- Deus não é um juiz.
- Nós não podemos imaginar Deus, mas somente compreendê-lo.
- Compreender é o começo do concordar.
- O desejo é a verdadeira essência do homem.
- O objetivo da Bíblia é ensinar a obediência.
- A fé sem obras é morta.
- A religião sempre se adaptou ao estado.
- A superstição é o meio mais eficaz de governar
- Um entendimento finito não pode compreender um infinito.
- Se não quer repetir o passado, estude-o.
- Buscar a igualdade entre os desiguais é um absurdo
- A natureza abomina o vácuo.
- Não existe medo sem esperança nem esperança sem medo.
- Tudo pode ser causa de prazer, dor ou desejo.
- Adoração é o amor de alguém que admiro.
Baruch Spinoza
Responsável: Arildo Luiz Marconatto

sábado, 6 de maio de 2017

Poetisa

Gabriela Mistral: Premio Nobel de Literatura 1945 (a sesenta años)
Por: Pedro Pablo Zegers Blachet
Postado por: dlsotolepe
La candidatura de Gabriela Mistral al Premio Nobel de Literatura data de 1939, año en el que surge un movimiento de opinión, que nació en el Ecuador y que se propagó por toda América, reclamando el premio para la escritora chilena. 
Fue apoyado por la prensa de todo el continente y por las instituciones literarias de Chile y de la casi totalidad de los países americanos. Se adscriben a este llamado, las Academias de Letras oficiales, entre ellas la española.
«Voy a contar cómo surgió mi candidatura para el Premio Nobel. La idea nació de una amiga mía, Adela Velasco, de Guayaquil, quien escribió al extinto presidente de Chile, señor Aguirre Cerda, que fue compañero mío, y sin consultarme presentó mi candidatura. En este momento tengo también que recordar a Juana Aguirre, esposa del Presidente».
(Entrevista concedida por Gabriela Mistral a La United Press, Rio de Janeiro, 1945
Norberto Pinilla, estudioso de la obra de Gabriela, observa que en realidad quien tuvo la primera iniciativa fue Virgilio Figueroa en su obra La divina Gabriela, publicada en 1933, y cuyo pedido, quejumbroso y altisonante, como todo su libro, no tuvo eco alguno en su momento.
Pero no bastaba el apoyo de las instituciones culturales de América. Era indispensable cumplir ciertos requisitos exigidos por la Academia Sueca en su reglamento. En primer lugar, los académicos debían conocer al autor, por lo tanto éste debía tener obras traducidas al sueco o, por lo menos, al inglés y al francés. De modo que el camino no era fácil y ofrecía muchas dificultades porque como bien lo había señalado la propia Gabriela «el poeta es la persona literaria menos traducida en el mundo en forma de libro».
Gabriela conocía los requisitos. Desde Niza, en 1939, se los comunicó a su comprovinciano Gabriel González Videla, en aquel entonces Ministro de Chile en Francia. La escritora proporcionó todos los datos que se le pedían, añadiendo: «Yo... no me doy ninguna diligencia en ayudarlos, aunque agradezco mucho su generosidad. Jamás haré el papel de vocero de mi nombre literario ni de mi obra misma». 
Lo anterior, porque creía firmemente que eran varios los literatos de América que podían ser distinguidos, como el venezolano Rómulo Gallegos, el mexicano Alfonso Reyes y el brasileño Casiano Ricardo. Lamentando que el premio no le hubiese sido concedido a Leopoldo Lugones, agregando que «nuestra literatura hispanoamericana es conocida en Europa sólo por los especialistas y por los que leen español».
Pese a todos los obstáculos, la campaña continuó impulsada por el propio Pedro Aguirre Cerda. Sus poemas comenzaron a ser traducidos al francés por Francis de Miomandre, Georges Pillement, Mathilde Pomes y Max Daireaux. Gabriel González Videla planeó la publicación de estas traducciones para la cual obtuvo un prólogo de Paul Valéry. Trabajo que Gabriela rechazó y no precisamente por falta de aprecio al autor. «Yo tengo por Valery -señala Gabriela en carta a Matilde Pomes- la más cabal y subida admiración en cuanto a capacidad intelectual y a una fineza tan extremada, que tal vez nadie posee en Europa, es decir, en el mundo». Lo que ocurría, en opinión de Gabriela es que Valéry no poseía un cabal conocimiento del español y, por tanto, «no podía juzgar con efectividad sus versos».
Sí aceptó un prólogo de Francis de Miomadre, poeta de menor altura que Valéry, pero mayormente conocido como traductor del español.
La irrupción de la guerra impide la aparición del libro, y frente al conflicto, la Academia decide suspender a partir de 1940 la concesión de sus premios, la que sólo se reanuda en 1944. La suspensión del premio, no impide la continua llegada a Estocolmo de peticiones provenientes de las más diversas instituciones y personalidades a favor de la candidatura de Gabriela Mistral. Tanto interés despertó la curiosidad del entonces secretario de la Academia Sueca, el académico Hjalmar Gullberg, quien tradujo al sueco muchas poesías de Gabriela, tomando de Desolación: «Balada», «Los huesos de los muertos», «Poema del hijo», «El niño solo», «El corro luminoso» y «Meciendo». De su libro Tala: «Adiós», «La copa» y «Beber», traducciones que dieron origen a una pequeña antología que fue publicada en 1941, bajo el título de Poema del hijo, en Bonniers Littera Magasin. La poesía de Gabriela comenzó a ser conocida por los suecos y la meta para la obtención del galardón se hacía cada vez más cercana.

«Estaba sola en Petrópolis, en mi cuarto, escuchando en la radio las noticias de Palestina. Después de una breve pausa en la emisora se hizo el anuncio que me aturdió y que no esperaba. Caí de rodillas frente al crucifijo que siempre me acompaña y bañada en lágrimas oré: "¡Jesucristo, haz merecedora de tan alto lauro a ésta tu humilde hija!... Matilde -se refiere a Matilde Ladrón de Guevara-, si no fuera por la traducción maestra que hizo de mi obra el escritor sueco, puliendo mi técnica, y con ello, mejorando mis poemas, tal vez jamás me habrían favorecido con el gran premio. Créalo, hermana"».

Recibida oficialmente la noticia de la adjudicación del premio Nobel, Gabriela comienza sus preparativos para viajar a Suecia. La premiación se iba a realizar el 10 de diciembre y su partida había sido fijada para el día 18 de noviembre. Tenía poco tiempo para los preparativos del viaje y su preocupación se centraba en el vestido que usaría para la ceremonia y en el frío que reinaba en los países nórdicos. Fue asesorada por la esposa del ministro de Suecia quien la obligó a aceptar en préstamo su abrigo de pieles.La acompaña en este viaje María Ana de Terra, -como lo certifica el pasaporte con el cual viajan a Estocolmo- esposa del sobrino del ex presidente Terra del Uruguay. Gabriela se encontraba en muy mal estado de salud. El 18 de noviembre, ambas se embarcan en el vapor Ecuador. Acuden a despedirla numerosas autoridades. Entre los presentes se encontraba el embajador de Chile, doctor Beltrami Morales, y el ministro plenipotenciario de Suecia, señor Ragnar Kamlin. Antes de partir, Gabriela declara a un periodista de la Agencia Reuter: «El nuevo mundo ha sido honrado en mi persona. Por lo tanto mi victoria no es mía, sino de América».
El Ecuador arriba al puerto de Göteborg el 8 de diciembre y al día siguiente, Gabriela Mistral y María Ana de Terra toman el tren con destino a Estocolmo. A su llegada, la esperaban el ministro de Chile, Enrique Gajardo Villarroel, el presidente de la Fundación Nobel, Ragnar Sohlman y el secretario de la cancillería sueca, Bill Hagen.
La ceremonia se realizaría el 10 de diciembre a las 17:00 horas en el «Konserthuset» (Palacio de la Filarmónica) de Estocolmo. Asistirían más de tres mil invitados, entre los que se contaban los miembros de la familia real, el cuerpo diplomático, el primer ministro sueco, entre otras personalidades. La entrega del premio la haría el rey Gustavo V.
Entre los testimonios de esta ceremonia cabe rescatar los del entonces ministro de Chile en Suecia, Enrique Gajardo Villarroel y el del escritor argentino Manuel Mujica Láinez, enviado especial del diario La Nación para cubrir esta noticia. Cuenta Mujica Láinez que se encontró con Gabriela Mistral en el hotel a su llegada de Göteborg: «Los periodistas la asediaban y ella accedía a sus solicitudes con la graciosa hidalguía que le es propia, dejándose retratar con el enorme abrigo que ha traído del Brasil, y que le prestó allí la esposa del ministro de Suecia, pues la poetisa no ha tenido tiempo materialmente para preparar un ajuar adecuado a los rigores de este clima».

«... Evidentemente -le comenta Gabriela a Mujica Láinez-, lo que Suecia deseaba es que la alta recompensa recayera en la América del Sur. Otros hubo que pudieron recibirla con tantos o más méritos que yo... Si a alguno creo celebrar es a esa multitud de niños de ayer que son los hombres de hoy y que en todo el continente me conocieron y me quisieron, porque yo los conocí y los quise».

El mismo Mujica Láinez nos entrega, a su vez, una viva descripción de la ceremonia del día 10 de diciembre:

«Había comenzado a nevar. A las 17:00 horas en punto el rey Gustavo V entró al Palacio de los Conciertos acompañado de su familia. Los premiados fueron apareciendo en el proscenio precedidos por el anuncio metálico de los clarines. La escritora chilena llegó del brazo del secretario de la Academia de Letras. Entre los que habían obtenido el galardón se encontraban Fleming, Chain y Florey a quienes debemos la penicilina.
Se ejecutó el himno sueco, se escuchó un breve discurso del presidente de la Fundación y luego se procedió a presentar a los premiados. A medida que éstos eran proclamados, descendían del estrado y recibían de manos del Rey el diploma y la medalla. El monarca pronunciaba unas breves palabras y los aplausos se oían en la sala.
Cuando le tocó el turno a Gabriela Mistral, los aplausos se hicieron más intensos, probablemente porque se trataba del primer escritor hispanoamericano que recibía el premio y la quinta mujer a quien se otorgaba esa recompensa».
La presentación estuvo a cargo de Hjalmar Gullberg, quien luego de hablar en sueco a la concurrencia, se dirigió en español a la escritora:

«Un día, las lágrimas de una madre hicieron que toda una lengua desdeñada por la gran sociedad rehallara su nobleza y conquistara la gloria por el poder de la poesía. Se cuenta que Mistral, el primero de los dos poetas que llevan el mismo nombre que el viento del Mediterráneo, habiendo escrito, joven estudiante todavía, sus primeros versos en francés, logró con ello que su madre comenzara a derramar incontenibles lágrimas. En efecto, ella no era más que una campesina ignorante del Languedoc y no comprendía esta lengua refinada. Fue entonces que su hijo decidió escribir de allí en adelante en provenzal, su lengua materna. Escribió Mireille, que cuenta el amor de la linda campesinita por el pobre artesano, esa epopeya de la cual exhalaba el perfume de la tierra en flor y que termina con una muerte cruel. Así fue cómo la vieja lengua de los trovadores volvió a ser la lengua de la poesía. El Premio Nobel de Literatura volcó la atención del mundo sobre este hecho, en 1904. Diez años más tarde moría el poeta de Mireille.

El mismo año en que estallaba la Primera Guerra Mundial, un nuevo Mistral se presentaba, desde el otro extremo del mundo, a los Juegos Florales de Santiago de Chile y obtenía el laurel con algunos poemas de amor dedicados a un muerto.
La historia de Gabriela Mistral es tan conocida de los pueblos de la América del Sur que, transmitiéndose de país en país, ha llegado a convertirse casi en una leyenda. Y ahora, cuando por encima de las crestas de la Cordillera de los Andes y a través de las inmensidades del Atlántico, se nos brinda el honor, finalmente, de que volvamos a contarla en esta sala, hela, pues, aquí, simplemente.
En una pequeña aldea del valle de Elqui nació, hace algunas decenas de años, una joven maestra rural cuyo nombre era Lucila Godoy Alcayaga. Godoy era el nombre paterno, Alcayaga el materno, uno y otro de origen vasco. El padre, que había sido maestro, improvisaba versos con alguna facilidad. Este talento parece haber estado unido en él con la inquietud y la inestabilidad habituales de los poetas. Abandonó su familia cuando su hija, para la cual había construido un pequeño jardín, era todavía una niña. La joven madre, que debería vivir largamente, ha contado que a veces sorprendía a su pequeña hija solitaria trabada en conversaciones íntimas con los pájaros y las flores del huerto. Según una versión de la leyenda, fue rechazada de la escuela. Aparentemente, se la consideró poco dotada para desperdiciar en ella las horas de la enseñanza. Se instruyó por sus propios medios y llegó tan lejos que ocupó el puesto de maestra rural en la pequeña aldea de La Cantera. Fue allí que se cumplió su destino, cuando llegaba a los veinte años. Un empleado de ferrocarriles trabajaba en la misma aldea y entre ellos nació un amor apasionado.
Conocemos pocos detalles de esta historia. Sabemos solamente que él la traicionó. Un día de noviembre de 1909, se atravesó las sienes de un balazo.
La muchacha fue presa de una desesperación sin límites. Como Job, elevó sus clamores al Cielo, que había permitido tal cosa. Desde el valle perdido en las montañas desérticas y requemadas de Chile se levantó una voz que los hombres en torno escucharon hasta muy lejos. Una banal tragedia cuotidiana perdía así su carácter privado y entraba en la literatura universal. Fue entonces que Lucila Godoy Alcayaga se convirtió en Gabriela Mistral. La pequeña maestra rural de provincia, esta joven colega de mademoiselle Lagerlöf, de Marbacka, llegaría a ser la reina espiritual de toda la América Latina.
En cuanto los poemas escritos en recuerdo del muerto dieron a conocer el nombre del nuevo poeta, la poesía sombría y apasionada de Gabriela Mistral comenzó a propagarse por toda la América del Sur. Sin embargo, fue sólo en 1922 que ella hizo imprimir en Nueva York su grandioso conjunto de poemas, Desolación. Son lágrimas maternales las que estallan en mitad del libro, en el decimoquinto poema, lágrimas vertidas por el hijo del muerto, este hijo que ya no debía nacer jamás.
Decía:
Un hijo, como árbol conmovido
de primavera alarga sus yemas hacia el cielo.
¡Un hijo con los ojos de Cristo engrandecidos,
la frente de estupor y los labios de anhelo!
Sus brazos en guirnalda a mi cuello trenzados;
el río de mi vida bajando a él, fecundo,
y mis entrañas como perfume derramado
ungiendo con su marcha las colinas del mundo.
Al cruzar una madre grávida, la miramos
con los labios convulsos y los ojos de ruego,
cuando en las multitudes con nuestro amor pasamos.
¡Y un niño de ojos dulces nos dejó como ciegos!
En las noches, insomne de dicha y de visiones,
la lujuria de fuego no descendió a mi lecho.
Para el que nacería vestido de canciones
yo extendía mi brazo, yo ahuecaba mi pecho...

Gabriela Mistral proyectó su amor maternal sobre los niños a los cuales instruía. Para ellos había escrito sus sencillas canciones y esas rondas reunidas en Madrid en 1924 bajo el título de Ternura. En honor suyo, cuatro mil niños mexicanos cantaron una vez esas rondas. Gabriela Mistral se convirtió en el poeta de la maternidad de adopción.Recién en 1938 apareció en Buenos Aires y para beneficio de los niños víctimas de la Guerra Civil de España, su tercer gran volumen, Tala, título que puede traducirse por Devastación, pero que también designa un juego infantil.

Contrastando con la patética emoción
de DesolaciónTala expresa la calma cósmica que envuelve a la tierra de Sudamérica, cuyo aroma llega hasta nosotros. Henos aquí de nuevo en el huerto de la infancia, de nuevo los íntimos diálogos con la naturaleza y las cosas. En una mezcla curiosa de himno sagrado y de ingenua canción para niños, estos poemas sobre el pan y el vino, la sal, el maíz, el agua, ¡esta agua que puede entregarse de diversas maneras al hombre conturbado, cantan los alimentos primordiales de la vida humana!

A la casa de mis niñeces              
mi madre me traía el agua.                
Entre un sorbo y el otro sorbo          
la veía sobre la jarra.               
La cabeza más se subía            
y la jarra más se abajaba.                 
Todavía yo tengo el valle,         
tengo mi sed y su mirada.         
Será esto la eternidad               
que aún estamos como estábamos.             
Recuerdo gestos de criaturas
eran gestos de darme el agua.

Esta poetisa nos ofrece ella misma en propia mano maternal su brebaje, que tiene el gusto de la tierra y que apacigua la sed del corazón. Ha surgido de la fuente que manaba para Safo en una isla de Grecia y para Gabriela Mistral en el valle de Elqui, la fuente de la poesía, que no se agotará jamás sobre la tierra.

«Señora Gabriela Mistral:
Habéis hecho un viaje demasiado largo para un discurso tan corto. En el espacio de algunos minutos, he contado, como un cuento, a los compatriotas de Selma Lagerlöf, la extraordinaria peregrinación que habéis realizado para pasar de la cátedra de maestra de escuela al trono de la poesía. Para rendir homenaje a la rica literatura iberoamericana es que hoy nos dirigimos muy especialmente a su reina, la poetisa de Desolación, que se ha convertido en la grande cantadora de la misericordia y la maternidad.
Os suplico, señora, tengáis a bien recibir de manos de Su Majestad real el premio Nobel de Literatura que la Academia Sueca os ha otorgado».

«¡Con qué señorío calmo bajó los escalones ella, a quien yo había visto poco antes tan inquieta! ¡Qué apropiada justeza hubo en su leve inclinación delante del Rey y en el lento movimiento de la mano con que agradeció la ovación del público!». Así comentaba Mujica Láinez el momento en el que Gabriela Mistral recibía el premio.
Esa misma noche, en el Palacio del Ayuntamiento se debía realizar el banquete de honor para 610 invitados. Allí los premiados fueron presentados al príncipe heredero, quien iba a presidir la fiesta. Fue él quien condujo del brazo a Gabriela Mistral hasta el asiento que le correspondía, a su derecha.
Luego de un resumido discurso en inglés, donde se elogiaba a los premiados, estos últimos se dirigieron a los presentes en su propio idioma. Gabriela Mistral, pronunció las siguientes palabras de agradecimiento:
«Tengo la honra de saludar a sus Altezas Reales los Príncipes Herederos, a los Honorables Miembros del Cuerpo Diplomático, a los componentes de la Academia Sueca y a la Fundación Nobel, a las eminentes personalidades del Gobierno y de la Sociedad aquí presentes.
Hoy Suecia se vuelve hacia la lejana América Ibera para honrarla en uno de los muchos trabajadores de su cultura. El espíritu universalista de Alfredo Nobel estaría contento de incluir en el radio de su obra protectora de la vida cultural al hemisferio sur del Continente Americano tan poco y tan mal conocido.
Hija de la Democracia chilena, me conmueve tener delante de mí a uno de los representantes de la tradición democrática de Suecia, cuya originalidad consiste en rejuvenecerse constantemente por las creaciones sociales más valerosas. La operación admirable de expurgar una tradición de materiales muertos conservándole íntegro el núcleo de las viejas virtudes, la aceptación del presente y la anticipación del futuro que se llaman Suecia, son una honra europea y significan para el Continente Americano un ejemplo magistral.
Hija de un pueblo nuevo, saludo a Suecia en sus pioneros espirituales por quienes fui ayudada más de una vez. Hago memoria de sus hombres de ciencia, enriquecedores el cuerpo y del alma nacionales. Recuerdo la legión de profesores y maestros que muestran al extranjero sus escuelas sencillamente ejemplares y miro con leal amor hacia los otros miembros del pueblo sueco: campesinos, artesanos y obreros.
Por una venturanza que me sobrepasa, soy en este momento la voz directa de los poetas de mi raza y la indirecta de las muy nobles lenguas española y portuguesa. Ambas se alegran de haber sido invitadas al convivio de la vida nórdica, toda ella asistida por su folclor y su poesía milenarios.
Dios guarde intacta a la Nación ejemplar su herencia y sus creaciones, su hazaña de conservar los imponderables del pasado y de cruzar el presente con la confianza de las razas marítimas, vencedoras de todo.
Mi patria, representada aquí por nuestro culto Ministro Gajardo, respeta y ama a Suecia y yo he sido enviada aquí con el fin de agradecer la gracia especial que le ha sido dispensada. Chile guardará la generosidad vuestra entre sus memorias más puras».

«Cuando me encontré con Gabriela Mistral -recuerda Mujica Láinez-, vi que sus ojos brillaban de lágrimas retenidas, y con el solo título, en este caso sobrado, de ser un argentino que la conoció hace años y que volvía a encontrarla por gracia de la casualidad en este país hospitalario, pero tan distinto, tan remoto de todo lo nuestro, la abracé y le dije: 'Señora, considere usted que es el abrazo de nuestra América'».
Años más tarde, ya en Chile, el propio ministro Gajardo Villarroel, recordaría esta ceremonia como sigue: «Gabriela Mistral fue la tercera en ser llamada. Acto seguido, se levantó de su asiento y, lentamente, con esa majestad de sacerdotisa antigua, atravesó el proscenio y ascendió la pequeña escalera para ir a presencia del Rey. Todo el teatro se puso de pie. Resonaron las trompetas, llenando el ambiente de dulces armonías. El Rey saludó con mucho afecto a Gabriela, cuyo rostro se iluminó con esa suave sonrisa, que encantaba a los que la conocían. Sus ojos brillaban con una mirada afable y humilde, como si no fuera para ella el premio que en esos momentos se le entregaba. Mi emoción fue intensa. Un escalofrío recorrió todo mi cuerpo y sentí que mis ojos se humedecían. Veía frente al anciano monarca a Lucila Godoy Alcayaga. La pobre profesora rural de los pequeñuelos del valle de Elqui. La campesina, la mestiza aimará que por su talento, sus virtudes, su exquisita sensibilidad, recibía el más alto galardón a que puede aspirar un escritor. Veía, también, a una chilena, genuina representante de nuestro pueblo, de nuestra raza».
Gabriela Mistral permaneció un mes en Suecia, donde se le rindieron toda clase de homenajes. Se gana rápidamente la simpatía del pueblo sueco, que vio en ella a otra Selma Lagerlöf. Aunque se la invitó a quedarse en el país el tiempo que deseara, Gabriela continúa viaje a Francia, Italia y Gran Bretaña, países que no visitaba desde antes de la guerra.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Poeta

Pablo Neruda
Postado por: dlsotolepe
(Seudónimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto; Parral, Chile, 1904 - Santiago de Chile, 1973) Poeta chileno, premio Nobel de Literatura en 1971 y una de las máximas figuras de la lírica hispanoamericana del siglo XX. A la juventud de Pablo Neruda pertenece el que es acaso el libro más leído de la historia de la poesía: de Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), escrito a los veinte años, se habían editado dos millones de ejemplares a la muerte de su autor.
Pablo Neruda
Del amor apasionado y cálidamente humano de los Veinte poemas, con resabios modernistas pero plenamente original en sus brillantes imágenes, pasaría Neruda a expresar con la fuerza de un surrealismo personal el sinsentido del hombre y del cosmos en Residencia en la tierra (1933-1935), para construir una nueva fe desde el compromiso político en la épica del Canto general (1950) e inclinarse finalmente por la sencillez temática y expresiva de las Odas elementales (1954-1957). Siempre receptivo a las innovaciones estéticas, su copiosísima producción, que incluye multitud de libros además de los citados, reflejó las sucesivas tendencias en el devenir de la lírica en lengua española y ejerció una fuerte influencia en poetas de todo signo.
Biografía
Nacido el 12 de julio de 1904 en Parral, en la región chilena de Maule, la madre del poeta murió sólo un mes más tarde de que naciera él, momento en que su padre, un empleado ferroviario, se instaló en Temuco, donde el joven Pablo Neruda cursó sus primeros estudios y conoció a Gabriela Mistral. Comenzó muy pronto a escribir poesía, y en 1921 publicó La canción de la fiesta, su primer poema, con el seudónimo de Pablo Neruda (en homenaje al poeta checo Jan Neruda), nombre que mantuvo a partir de entonces y que legalizaría en 1946.
También en Temuco comenzó a trabajar en un periódico, hasta que a los dieciséis años se trasladó a Santiago para cursar estudios de profesor de francés. Allí se incorporó como redactor a la revista Claridad, en la que aparecieron poemas suyos. Tras publicar algunos libros de poesía, en 1924 alcanzó fama internacional con Veinte poemas de amor y una canción desesperada, obra que, junto con Tentativa del hombre infinito, distingue la primera etapa de su producción poética, señalada por la transición del modernismo a formas vanguardistas influidas por el creacionismo de Vicente Huidobro.
Neruda con Matilde Urrutia
y en la entrega del Nobel (1971)

 Los problemas económicos indujeron a Pablo Neruda a emprender, en 1926, la carrera consular que lo llevó a residir en Birmania, Ceilán, Java, Singapur y, entre 1934 y 1938, en España, donde se relacionó con Federico García LorcaVicente AleixandreGerardo Diego y otros componentes de la llamada Generación del 27, y fundó la revista Caballo Verde para la Poesía. Desde su primer manifiesto tomó partido por una «poesía sin pureza» y próxima a la realidad inmediata, en consonancia con su toma de conciencia social. En tal sentido, Neruda apoyó a los republicanos al estallar la guerra civil y escribió España en el corazón (1937).
Previamente, sin embargo, sus poemas habían experimentado una transición hacia formas herméticas y hacia un tono más sombrío al reflejar el paso del tiempo, el caos y la muerte en la realidad cotidiana, temas dominantes en otro de sus libros imprescindibles, Residencia en la tierra, publicado en dos partes en 1933 y 1935 y que constituye el eje de su segunda etapa. Imágenes originalísimas y audaces de raigambre surrealista expresan en esta obra una visión profundamente desolada del ser humano, extraviado en un mundo caótico e incomprensible.
De regreso en Chile, en 1939 Neruda ingresó en el Partido Comunista y su obra experimentó un giro hacia la militancia política. Esta tercera etapa, que tuvo su preludio en España en el corazón (1937), culminaría con la exaltación de los mitos americanos de su Canto general (1950). En 1945 fue el primer poeta en ser galardonado con el Premio Nacional de Literatura de Chile. Al mismo tiempo, desde su escaño de senador utilizó su oratoria para denunciar los abusos y las desigualdades del sistema. Tal actitud provocó la persecución gubernamental y su posterior exilio en Argentina.
De allí pasó a México, y más tarde viajó por la URSS, China y los países de la Europa del Este. Tras este viaje, durante el cual Neruda escribió poemas laudatorios y propagandísticos y recibió el Premio Lenin de la Paz, volvió a Chile. A partir de entonces, la poesía de Pablo Neruda inició una nueva etapa en la que la simplicidad formal se correspondió con una gran intensidad lírica y un tono general de serenidad; el mismo título de una obra central de este periodo, Odas elementales(1954-1957),  caracteriza los versos de aquellos años. En 1956 se separó de su segunda esposa, Delia del Carril, para unirse a Matilde Urrutia, que acompañaría al poeta hasta el final de sus días.
Su prestigio internacional fue reconocido en 1971, año en que se le concedió el premio Nobel de Literatura. El año anterior Pablo Neruda había renunciado a la candidatura presidencial en favor de Salvador Allende, quien lo nombró poco después embajador en París. Dos años más tarde, ya gravemente enfermo, regresó a Chile. Falleció en Santiago el 23 de septiembre de 1973, profundamente afectado por el golpe de estado que, doce días antes, había derrocado a Salvador Allende. De publicación póstuma es la autobiografía Confieso que he vivido.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Vontade...

Vontade de poder enquanto princípio criador:
da morte de Deus até o landmark sobre a crença no Grande Arquiteto do Universo.
Márcio Moraes dos Santos, Mestre Instalado da ARLS Feitoria Real nº122 da MRGLMERS
Acadêmico Titular da Cadeira nº 10 da ACADESUL

         Dificilmente poder-se-á afirmar com segurança os motivos pelos quais Nietzsche desenvolveu seu conceito de Vontade de Poder (ou Vontade de Potência dependendo da tradução). Todavia, a gênese de sua obra, a partir do conjunto de proposições ontológicas e epistemológicas, sugere que este conceito foi criado como base para o desenvolvimento de outras ideias daquele que dizia fazer Filosofia a golpes de martelo.
         A Vontade de Poder é uma proposição (ou como ver-se-á adiante também uma preposição) ontológica que sustenta toda a teoria do filósofo alemão, partindo do pressuposto, para fins didáticos, de que seria possível imaginar uma teoria de Nietzsche. Inclusive sua genealogia da moral é concebida consoante à ideia de Vontade de Poder. É a partir desta ideia que Nietsche construiu sua crítica tanto à Filosofia ocidental pós-socrática quanto ao próprio cristianismo.
         Contudo, para se compreender o conceito de Vontade de Poder (ou de Potência) é necessário compreender seu conceito oposto: a Vontade de Verdade.  Esta vontade seria o desejo que motiva o homem a uma verdade eterna e imutável que estaria por trás (ou antes) da realidade, algo análogo à essência em Platão. Nietzsche, com sua Vontade de Poder, estabelece uma crítica ao crer que a Vontade de Verdade teria uma intenção prática e política de nivelar os homens, normatizar a vida e reduzir o livre pensamento, freando os desejos e impulsos que historicamente desenvolveram a humanidade.
         Para Nietzsche a Vontade de Verdade, enquanto força de controle, se revela nas religiões e na Filosofia pós-socrática como um desprezo pelo mundo, fazendo o homem se dirigir para um suposto além-mundo, fomentando uma valorização de uma criada dimensão espiritual que acabaria por desligar o homem da realidade, tornando-o propositadamente fraco, doente e manipulável. Neste sentido, muitos anos depois, Foucault (1993) colabora ao discutir a docilização dos corpos, o surgimento da medicina social e os sistemas de vigilância e punição, modelos de coerção baseado na premissa de que existe uma verdade à priori e que aqueles que a possuem também possuem um determinado saber-poder sobre os demais.
         Nesta linha, poder-se-á dizer que até mesmo o ateísmo é uma Vontade de Verdade, uma crítica estéril a um Deus que (segundo Nietzsche) não existe, gerando uma atividade filosófica inútil. Nietzsche fala que a modernidade foi tomada por uma Vontade de Verdade que atenta contra a vida e que todos os valores que atualmente são difundidos nas sociedades ocidentais são como doença, por serem valores infestados de preconceitos morais que degeneram o homem. Esta estratégia fez com que o ocidente gerasse homens fracos, “humildes” e dignos de pena. A valorização espiritual acabou por gerar uma precariedade espiritual, fato facilmente observável, por exemplo, pela proliferação de denominações religiosas neopentecostais que, sob a suposta égide de serem os arautos da verdade celestial precarizam totalmente a relação do homem com o sagrado em diversas oportunidades. A Vontade de Verdade é¸ para Nietzsche, uma mentira.
         Por outro lado, a Vontade de Potência (ou de Poder) é uma vontade de vida, não de saber a verdade da vida, mas de vive-la. Nietzsche toma inicialmente este conceito (a vontade) de Schopenhauer (2005): é uma forma cega e insaciável que estaria além dos sentidos humanos. A Vontade de Poder representa (e a ideia de representação aqui pode ser um problema) tudo o que pode ser visto, ou seja, a realidade, sendo assim o substrato que constitui a existência (e não sua essência em termos platônicos).
         Mas, para Nietzsche, a vontade não está fora do mundo, ela se dá na relação, ou seja, é múltipla e se mostra como efetivação do real. É impossível uma só força, uma força única e indivisível, posto que a Vontade de Potência se diz sempre no plural, conjunto de forças. Sendo assim, o mundo estaria em luta constante, sem equilíbrio possível, em tensão que se evidencia pelo movimento das forças relacionais, às vezes delicado, outras vezes violento.
         A vida é Vontade de Potência, mas não se pode restringi-la apenas à vida biológica, posto que esta vontade está presente em toda a realidade: desde as reações químicas mais simples até a complexidade do psiquismo humano. É uma vontade que procura expandir-se, superar-se, juntar-se a outras forças e se tornar maior. Tudo no mundo, segundo Nietzsche, é Vontade de Potência, porque todas as forças procuram sua própria expansão. Neste espaço de instabilidade e embate de forças (ação e reação) instáveis, a permanência e a identidade são banidas; neste mundo reina a diferença. A Vontade de Potência, pode então ser também pensada como superação, como um constante (no sentido de reiterado) ir para além dos próprios limites.
         A vontade se apresenta no real como sede de dominar, conquistar e ampliar territórios, fazer-se mais forte, constranger outras forças e assimilá-las. Urge, então, a pergunta: quanto pode uma força? A onda mecânica de som que se propaga, a magnética que atrai nos imãs, a força da divisão celular que forma novos tecidos, o animal que domina o outro, tudo são exemplos desta vontade, a qual permanece em constante expansão e transformação sem nunca encontrar ponto de repouso.  Cada força, expressão da vontade, quando dominante, abre novos horizontes, encontra novas passagens, cria novos caminhos.
         Analogicamente, se em Física a potência é a capacidade de se realizar um trabalho, na Filosofia de Nietzsche a Vontade de Potência é a capacidade da vontade de efetivar-se. Para Nietzsche, o homem não quer apenas conservar-se em suas zonas de conforto ou adaptar-se às adversidades da vida para, então, sobreviver. Este comportamento seria típico de um homem doente. O homem quer expansão, domínio, criação de valores, significar e fazer sentido, enunciando assim um papel ativo na realidade ao criar suas próprias condições de potência a partir de uma efetivação que só é possível pelo embate das forças, dos corpos.
         E o que é potência? É um eterno dizer-sim, enunciado ativo. A potência se afirma (e efetiva) na vontade quando diz sim ao devir. O sentido é o resultado dessas forças, que se exprime pela cognição: a vontade aí é a Vontade do Poder, ou o que quer o poder.
         Em Assim Falou Zaratustra, Nietzsche (1998) anuncia a vontade: “eis o nome libertador e mensageiro da alegria: assim vos ensinei eu, meus amigos”. A realização da vontade tem por consequência a alegria, fórmula simples, mas tão ignorada.
         A Filosofia de Nietzsche propõe que o homem, para ser feliz, deva se apropriar de sua Vontade de Poder (ou de Potência) para poder voltar a criar valores e não apenas os reproduzir. Somente assim poderia o homem experimentar e experimentar-se no mundo, estabelecendo novas cognições e ultrapassando os valores do seu tempo.  Somente a partir desta apropriação de sua vontade poderia o homem se livrar de toda genealogia da moral que lhe impôs uma camisa de força dogmática e moral por séculos de civilização apoiada na transcendência. Para Nietzsche, o “poder” da Vontade de Poder permite uma análise imanente (e não transcendente) capaz de compreender o mundo sem ceder às explicações metafísicas (calcadas predominantemente pelas religiões) a fim de se promover a criação de novos sentidos, superando os atuais, em franco movimento de superação e expansão.
         A Vontade de Poder em Nietzsche decorre de duas preposições:
         - Primeira preposição: o total da força que existe o universo é determinada, não infinita. Deduz-se que o número de situações e combinações dessa força é mensurável (posto que finita).
         - Segunda preposição: o tempo é infinito e antes deste momento (presente) houve uma infinidade de tempo.
         Ao não admitir a existência de Deus, do Criador, Nietzsche admite que a matéria, essa energia da qual é constituído o universo, não pode ter sido criada. Assim, ele sempre existiu e nunca foi criada. Se ela existe não-criada ela deve estar aqui desde sempre. Existindo desde sempre, se houvesse tendência ou estado a ser atingido, a eternidade é tempo suficiente para que já tivesse sido atingido, pois, repisa-se, houve uma infinidade de tempo até o agora.
         Inexistindo tendência de aumento ou extinção da força constitutiva do universo, se deduz que a força que hoje existe tem de ter estado eternamente ativa e igual. Todos os desenvolvimentos possíveis já devem ter acontecido (pela infinidade do tempo pregresso) e todos os instantes seriam eternas repetições.
         Ainda propõe Nietzsche que não existe repouso nas forças, pois se elas estão em um infinito de tempo para trás em atividade, tal estado (de repouso) já teria sido alcançado se fosse possível e perduraria, em cumprimento a uma hipotética tendência que não se evidencia.
         Esse mundo das forças (a qual Nietzsche chama de Eterno Retorno) é circular na medida em que retorna e sem nenhuma tendência, senão já a teria alcançado.
         A partir da noção de algo originário, nunca em repouso, mas em constante devir, da dedução de que o embate das forças jamais encontra equilíbrio, se constrói o conceito de Vontade de Poder, anunciada nos textos de 1881 (nos fragmentos póstumos), em livre tradução do espanhol:

“E sabeis... o que é pra mim o mundo? (...) Este mundo: uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força... uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou rendimento,... mas antes como força ao mesmo tempo um e múltiplo,... eternamente mudando, eternamente recorrentes... partindo do mais simples ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez... esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio, sem alvo, sem vontade... Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!” (NIETZSCHE, 2008)
        
Usando a terminologia de Nietzsche, a Vontade de Poder é uma lei originária (sempre existiu), sem exceção nem transgressão. Vontade de Poder não está desta forma relacionada a nenhum tipo de força física, dinâmica ou outra, mas é a lei originária que rege estas forças secundárias na economia deste sistema chamado universo, ou mundo. É a essência (tendo todo o cuidado com esta terminologia) e a própria “luta das forças” que formam a economia universal, impulso que reage e resiste no interior das forças, uma multiplicidade de forças que em suas graduações se manifesta na sua forma última em fenômenos políticos, culturais, astronômicos, permeando a natureza e o próprio homem. Com isso, o filósofo proclama que a Vontade de Poder não é algo criado ou que dependa de algo precedente, como teorias, religiões ou cosmogonias pois esta força é a própria realidade.
Vontade de Poder não é teológica ou dogmática. É o modo como se comporta aquilo que não pode ter finalidade ou sentido (o sentido da vida, a finalidade da vida humana, etc). Para Nietzsche a Vontade de Poder não é um ser, nem um devir (um tornar a ser), é um pathos, no sentido dado por Descartes de que “tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado (pelos filósofos) de pathos” (LEBRUN, 1987, p. 17).  A Vontade de Poder é um adoecimento de si mesmo, uma forma possível de se visitar o interior da terra. O conceito de vontade de poder pode também ser entendido como o desejo insaciável de se ser mais do que aquilo que se é presentemente.
Não há, pois, nada anterior ou posterior à Vontade de Poder no real. A realidade é a expressão desta vontade. Não há um fora do mundo, um plano metafísico a ser atingido. Há apenas um mundo visto de dentro:

“O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais.” (NIETZSCHE, 2002, §36)

Até este ponto foi possível, em parte, dar razoável clareza à concepção de Nietzsche em torno de sua Vontade de Poder (ou Potência), reiterando que se fala acerca da vontade (de expansão) da potência (de vida). A partir disso pode-se, então, iniciar a análise de um importante landmark da Maçonaria, à luz do Deus morto de Nietzsche. Repisa-se, para fins históricos, que os landmarks, limites balizadores da Maçonaria, apareceram pela primeira vez, com esta expressão, na compilação dos Regulamentos Gerais de 1721, incluído na Constituição de James Anderson.
“19º Landmark: A negação da crença no Grande Arquiteto do Universo é impedimento absoluto e insuperável para a iniciação.” (GLMERGS, 2010)

O candidato, para ser admitido maçom, dentre tantos outros critérios, presta uma série de juramentos de obediência, sob proteção do Grande Arquiteto do Universo. Em diversos rituais, inclusive no ritual de iniciação, a Maçonaria, em especial o Rito Escocês Antigo e Aceito, designa Deus como sendo o Grande Arquiteto do Universo. Este Deus maçônico representaria todas a deidades de todas as crenças, posto que na Maçonaria se admitem homens de todas as religiões e inclusive os que não professam religiões mas acreditam em um princípio criador ou em um ser superior, o que evoca a tendência quase hegemônica das obediências maçônicas adotarem posturas monoteístas. Evidentemente que o Rito Escocês Antigo e Aceito, por exemplo, tem fortes influências do judaísmo e do cristianismo.
Ora, por mais que a Maçonaria preste seus juramentos sobre um livro sagrado de revelação e que, mais radicalmente, o Rito Escocês adote a bíblia sagrada como livro ritualístico, não é correto afirmar que a Ordem tem postura teísta (baseada na revelação). Pelo contrário, uma série de características dela acabam por configurar condutas deístas:
a)     Exige-se a crença em um Grande Arquiteto do Universo, ente superior e criador, sem a obrigação da prática de uma religião.
b)    Estimula-se o uso da razão para conhecer e interpretar, sem a ascendência dogmática da palavra revelada.
c)     Defende-se a liberdade de se encontrar a espiritualidade na religião que lhe for mais aprazível.
d)    Estimula-se o livre pensamento, cujas convicções não decorem por força de uma tradição ou de uma autoridade decorrente de outros.
Se por um lado o deísmo se coloca como postura filosófico-religiosa que admite a existência de um Deus criador, por outro questiona a ideia da “inquestionável” revelação divina, ou seja, o texto sagrado, escrito por homens, não traduz nenhuma revelação deste Deus em termos literais. A razão, ao deísta, seria a única capaz de assegurar a existência de Deus, descartando-se a necessidade da prática de alguma religião institucional.
O teísmo, por outro lado, é a crença na existência de deuses, um ou mais, havendo ou não hierarquia entre eles. Algumas religiões são teístas e especialmente as religiões monoteístas dos judeus e dos cristãos influenciaram a Maçonaria.
Esclarecidos estes conceitos e justificada a ideia de que a Maçonaria ora transita por condutas teístas e em outros momentos por ideias deístas, abre-se a pergunta salutar:
“E se o Grande Arquiteto do Universo não fosse um Deus, concebido sob preceitos antropomórficos? E se ao invés de um sujeito ele fosse uma ação?”
         Imediatamente, para responder a esta pergunta é importante remeter ao texto sagrado:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se faz..” (JOÃO 1:1-3 in BIBLIA, 1980)
         Ora, sem forçar uma exegese, fica claro que há uma subjetivação da ação. Verbo, no texto, é um sujeito, mas mais do que isso, um sujeito em ação.
         A crença maçônica no Criador incriado, ser superior, pressupõe que houve um princípio da criação e, que antes deste ponto temporal, tal Criador existia e infinitamente sempre existiu. Assim, todas as coisas decorridas após a criação seriam criaturas. Contudo, utilizando o mesmo texto sagrado, podemos remeter a criação de Adão, cujo espirito foi soprado na matéria amorfa pelas narinas do Criador de modo que fosse feito à Sua imagem e semelhança.
         Se um dos aspectos mais originais do Criador é sua capacidade de criar e considerando que ao homem o mesmo legou, por ter sido feito semelhante, esta capacidade, urge, então, avaliar em que medida a própria vida humana não é um movimento de criação. A capacidade de pensar sobre pensar parece ser uma das ferramentas mais importantes da ação criadora do homem. É apenas refletindo sobre quem é, de onde veio, para onde vai e qual é o seu propósito, que o homem, autoreflexivo, cria suas ações na realidade. Assim, em certa medida, o Criador reflete seu “dom” em sua criatura.
         Então, neste sentido, em um exercício reflexivo, pode-se pressupor que, à Obra, o ato criador é tão ou mais importante do que a própria existência de um criador concedido antroporficamente. Pode parecer um paradoxo imaginar um princípio criador que não tenha um sujeito por trás, porém a própria concepção de um ser, um ente criador é um axioma, dogma.
         A questão “Deus existe?” não é um bom problema filosófico posto que em verdade coexiste com esta questão outra: “acredito ou não em Deus?”. Todavia, a resposta a estas questões não importa muito. O que importa é por qual motivo perguntam isso, a qual problema isso responde? Ademais, a partir ou consoante a esta pergunta, qual conceito de Deus será elaborado por aquele que questiona? Problema e conceito são os pontos nevrálgicos da pergunta em torno da existência, ou pré-existência, de um ser superior. Sem avaliar estes dois elementos não se faz Filosofia.
         Nietzsche, ao proclamar que Deus está morto e que nós o matamos, se dirige ao âmago do problema: Deus está morto como um axioma ou dogma eterno, como um ser que controla e conduz o mundo, como sentido último da existência humana, ou seja, Nietzsche anuncia o fim de Deus enquanto um modo de vida, uma ética, para além da discussão de ele existe ou não. O que é colocado em xeque pelo filósofo é justamente a decadência de uma moral teológica, na época, pela ascensão do niilismo. É o fim de todo idealismo e platonismo. Como lidar com a situação caótica: com a vontade de potência! Este niilismo anuncia a liberdade face ao criador e ao mesmo tempo lança um desafio: como se viver com uma liberdade nunca antes vista? Que modos de vida a existência crença em Deus implicava e que modos de vida a existência da não crença em Deus implica?
         São questões importantes, especialmente ao maçom que deposita em Deus sua fé. Por outro lado, são questões igualmente importantes ao maçom que pressupõe o Grande Arquiteto do Universo não como um ente, mas como um princípio criador.
         Para Nietzsche o que importa não é a notícia de que Deus está morto, mas o tempo que ela leva para dar frutos a partir da apropriação da vontade de potência pelos homens, justamente esta vontade de potência que deu e dá forma e força a tudo que existe no real.
         Crer que o Grande Arquiteto do Universo é um princípio criador, e não um ser, torna o candidato à iniciação um ateu inapto ao cerimonial? Ora, ao menos no Rito Escocês Antigo e Aceito, as perguntas feitas ao candidato no decurso da cerimônia esperam resposta que coloquem Deus (o do monoteísmo) como depositário da crença. Porém, se em um exercício mental fosse imaginado que a esperança do candidato fosse colocada não em um ser, mas em um princípio como a vontade de potência? Algumas consequências poderiam ser inferidas desta decisão:
         - O maçom não estaria submetido aos desígnios de difícil cognição de um ser superior, que em medida lhe trazer conforto e em parte angústia. O maçom deveria ser senhor de sua própria vida e não consequência da expressão da vontade divina.
         - A ética do maçom estaria norteada no bom uso que faria deste “dom”, que lhe é originário, denominado vontade de potência.
         - o “bom” maçom buscaria se expandir, se melhorar, promover a vida e a expansão da vida, a sua e a da sociedade.
         - o “belo” maçom seria aquele que se apropria da sua vida e, tomando atitudes autorais, encontra seu lugar no mundo.
         Estas consequências seriam possíveis diante da acepção de um ser superior governante dos mundos? Parece que não:
         - pois a crença em um governante preconiza um governado e, além disso, toda uma genealogia moral, entre as leis emanadas do poder governante e cumpridas pelos governados.
         - pois a ética do maçom estaria balizada no estreito cumprimento das leis morais preconizadas pela revelação dos textos divinos de sua religião, ou no caso dos não inseridos em denominações religiosas, aos códigos morais dos grupamentos aos quais pertencem.
         - pois o “bom” maçom procuraria cavar masmorras aos vícios e erigir templos às virtudes, sem levar em conta de que os vícios fazem parte da vida de forma muito importante da mesma maneira que as virtudes podem ser obstáculos à expansão da vida quando se colocam como um lugar a se alcançar.
         - pois o “belo” maçom é aquele que reflete as qualidades do criador, preconizadas na revelação do livro sagrado.
         Colocado isso, diante da dicotomia que se anuncia pelos limites éticos e estéticos embasados na crença em Deus (teísmo ou deísmo) e pelos limites suplantados no exercício da vontade de potência, persiste a questão: como ser maçom para além ou apesar das perspectivas deístas ou teístas sem que se declare ateu, agnóstico, imoral ou amoral?
         Pergunta complexa, porém, com possíveis caminhos:
         - é razoável pensar que é possível ser maçom tendo a crença de que o Grande Arquiteto do Universo não e um ser, mas um princípio criador, uma força capaz (ou um conjunto de forças) de gerar continuamente vida e expansão dela. Tal crença não anula a possibilidade de outro maçom ter uma postura teísta ou deísta.
         - crer em um princípio criador originário, onde o maçom deposita sua fé e, por conseguinte, a partir de onde orienta sua conduta ética e estética, não o torna ateu. Apenas entende que ao exercício da maçonaria (fazer feliz a humanidade) é mais importante fomentar a vontade de potência enquanto força criadora, do que apenas depositar  (ou somente depositar) a crença na existência de um criador incriado.
         - crer em um princípio criador como sendo o Grande Arquiteto do Universo não pressupõe que o maçom seja agnóstico pois o agnosticismo deduz a dificuldade de se proclamar reinvindicações religiosas ou metafísicas pela suposta impossibilidade de serem desconhecidas ou incognoscíveis.
         - crer em um princípio criador não torna o maçom imoral pois o exercício da vontade de potencia pressupõe uma constante avaliação genealógica dos códigos morais, ou seja, a não aceitação de leis morais sem compreender o problema ao qual elas remetem e o significado de se submeter a elas. Em nenhum momento haveria a renúncia aos códigos morais.
         -crer em um princípio criador não torna o maçom amoral, justamente porque não há a renúncia de códigos morais, mas a constante problematização de suas origens e destinos.
         Assim, conclui-se, à despeito de todo respeito que deve ser conferido às diferentes crenças e visões de mundo, sem adentrar na discussão religiosa, que é perfeitamente crível imaginar a existência de um maçom, dentro do que se espera em termos de conduta do mesmo preconizada nos rituais e leis da Ordem, que possa conceber o Grande Arquiteto do Universo enquanto um princípio criador e não necessariamente um ser superior.

Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de Padre Antônio Pereira de Figueiredo. Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica, 1980.
FOUCAULT, Michael. Os corpos dóceis. In:  FOUCAULT, Michael. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1993.
GLMERGS - GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Coletânea Maçônica. Porto Alegre: 2010.
LEBRUN, Gerard. O conceito de paixão. In: NOVAES, Adauto. O sentido da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
_________________. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letra, 2002.
_________________. Fragmentos póstumos (1875-1882).  Vol.2 Madrid: Tecnos, 2008

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e representação. Vol I. São Paulo: UNESP, 2005.